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Entre França e Inglaterra, situadas no Canal da Mancha, existem as ilhas denominadas Anglo-Normandas. Dessas ilhas, as principais são a de Jersey, com aproximadamente 116 km2, a Guernsey e a Alderney. A raça Jersey teve como berço originário a mencionada Ilha de Jersey, cuja condição insular concorreu, inicialmente, para a manutenção da raça dentro de um estreito grau de consangüinidade, sendo que, a partir de 1763, mediante a promulgação de leis específicas que visavam preservar a pureza racial, o governo local proibiu a importação de gado alienígena, a não ser que se destinasse ao abate imediato. A origem da raça Jersey tem sido objeto de consideráveis especulações, sendo que alguns autores preconizam data próxima à do ano 1100 como de início de sua formação. A observação de animais nos estágios iniciais de desenvolvimento frequentemente traz informações sobre a evolução da raça. Verifica-se, por exemplo, extrema semelhança entre bezerros recém-nascidos Jersey e os de várias raças de origem francesa. Dentre estas, destacam-se a Parthenaise e a Tarentaise, que se constituíram como linhas de migração através da França, da Itália e da Suíça. De fato, no passado era comum encontrar gado de tipo semelhante ao Jersey ao longo das costas Normanda e Bretã. Esta afirmativa é reforçada por algumas pinturas rupestres (ilustração abaixo) de mais de 30.000 anos encontradas nas cavernas de Lascaux, que demonstram esta similaridade racial. É historicamente aceitável, também, a hipótese de que a Ilha de Jersey esteve conectada às costas da Normandia, em tempos ancestrais, justamente quando o gado do tipo normando teria migrado para aquela parte do continente francês. Merece, finalmente, ressaltar que a Ilha de Jersey compôs o Ducado da Normandia e, portanto, esteve sob as leis escandinavas por cerca de 300 anos. Daí a expressiva semelhança do Jersey e das raças francesas com o gado escandinavo. O aprimoramento da raça foi rapidamente alcançado com a constituição, em 1833, na Ilha de Jersey, da “Royal Jersey Agricultural and Horticultural Society”. O “Jersey Herd Book” iniciado em 1866 fixou diretrizes nas quais o rigor de seleção dos animais foi o principal responsável pela transformação da raça Jersey na mais “elegante e graciosa” produtora de leite da atualidade.
A raça Jersey está espalhada por todo o mundo e sua disseminação tem sido um processo gradual, ao longo dos últimos dois séculos. Cada país onde a raça se estabeleceu, desenvolveu seu próprio gado adaptado às condições ambientais locais. Na Ilha de Jersey, berço da raça, um profícuo trabalho de aprimoramento realizado ao longo de mais de 400 anos resultou em um animal de uniformidade, conformação e aptidão leiteira superiores a todas as demais raças especializadas. Antes do final do século 18, um grande número de animais foi exportado para a Inglaterra, onde a raça foi selecionada de modo a se tornar uma eficiente produtora de leite com altos teores de proteínas. Há uma quantidade considerável de gado Jersey no Norte Europeu, particularmente na Dinamarca, onde a raça representa cerca de 20% de todo o gado leiteiro. A Jersey dinamarquesa é a vaca que produz o leite com o mais alto teor de gordura no mundo. França, Alemanha Oriental, Noruega e Suécia são países onde a raça Jersey se estabeleceu, há longo anos, e, mais recentemente, mesmo a Holanda (*), terra do gado Holstein-Frisian, tem integrado essa lista. Importando gado Jersey para cruzamento, os holandeses têm conseguido melhoria do teor de gordura do leite, maior facilidade de parição e maturidade mais precoce de suas matrizes. (*) O pintor impressionista holandês Van Gogh retratou em uma de suas valiosíssimas telas, expostas no Musée des Beaux-Arts, Lille, France, um lote de vacas leiteiras perfeitamente identificáveis como sendo da raça Jersey.
Os países do Leste Europeu têm importado grande quantidade de gado Jersey. Na Hungria, em particular, a raça tem sido muito utilizada no cruzamento com o gado Fleckvieh para incrementar seu desempenho leiteiro. O Jersey da América do Norte foi selecionado para altas produções por lactação. Nos EUA é a raça que mais se desenvolve, representando 10% de todo o rebanho leiteiro. No Canadá tem aumentado significativamente a participação do gado Jersey, face ao crescente valor de remuneração dos componentes sólidos do leite. As primeiras Jerseys cruzaram o Atlântico no século 19 e, desde então, os EUA e Canadá, através das políticas adotadas pelas associações de criadores, com o apoio dos respectivos governos, foram, em grande parte, responsáveis pelo sucesso alcançado pela raça, cujas produções médias têm aumentado, anualmente, e cujos recordes de produção individual têm sido constantemente batidos. Uma das reconhecidas qualidades da raça Jersey é, sem dúvida alguma, sua adaptabilidade às mais variadas condições de solo, clima e temperatura. Isto é especialmente vantajoso em regiões áridas da Ásia e Oriente Médio. Milhares de animais têm sido importados por países como Arábia Saudita, Líbia, Egito, Oman, Bahrain e Iêmen, com o objetivo de proporcionar leite de qualidade para a população. Na Índia, um vasto programa nacional de cruzamentos, envolvendo centenas de milhares de vacas leiteiras, privilegiou a raça Jersey como a principal fonte de recursos genéticos para o melhoramento do gado indígena como Red Sindhi, Sahiwal, Gir e outros. Na África do Sul, as primeiras Jerseys chegaram em 1877 provenientes da Ilha Jersey e, hoje, a raça desempenha importante papel na industria leiteira do país, tendo-se disseminado por todas as partes do continente Africano (Quênia, Tanzânia, Zimbábue, Zâmbia, etc). Devido ao alto grau de tolerância ao calor e à maior resistência aos ecto e endo parasitas tropicais, a Jersey é considerada a raça ideal para as condições climáticas e ambientais da África. Austrália e Nova Zelândia são dois dos maiores produtores mundiais de manteiga, e suas indústrias contam, pesadamente, com a produção de leite Jersey. Aproximadamente 50% de todo o seu rebanho leiteiro é da raça Jersey, a qual foi introduzida nestes dois países em 1890 e 1862, respectivamente. Na América Latina a raça Jersey tem aumentado consideravelmente, sendo grande o seu potencial de desenvolvimento. Os principais países onde são encontrados rebanhos Jersey são: Brasil, Uruguai, Argentina, Costa Rica, Venezuela, Colômbia, Panamá e Jamaica. A história da introdução da raça Jersey no Brasil passa, necessariamente, pela importante iniciativa do diplomata Joaquim Francisco de Assis Brasil que, enquanto embaixador em Portugal, promoveu em 1895 a primeira exportação de gado Jersey para o nosso país. Até 1905, os primeiros animais importados permaneceram no município de Alegrete no Rio Grande do Sul, sendo então transferidos para Pedras Altas, ocasião em que a família Assis Brasil começou a organizar seu registro, através do “Pedras Altas Herd Book”. Em 1930 o Governo Federal oficializou o reconhecimento da raça Jersey e, em 1938, mais precisamente no dia 16 de outubro, um grupo de criadores se reuniu na cidade do Rio de Janeiro, no Departamento de Produção Animal do Ministério da Agricultura, e fundou a Associação dos Criadores de Gado Jersey do Brasil. Em agosto de 1974, por decisão da Assembléia Geral presidida pelo Dr. Mario Lopes Leão, decidiu-se transferir a sede da Associação para São Paulo, onde se iniciou um profícuo trabalho de fomento à criação do gado Jersey, em todo o território nacional. Nos últimos 20 anos, principalmente devido ao intenso intercâmbio comercial com os EUA e o Canadá, o Brasil passou à condição de detentor de um dos melhores rebanhos Jersey do mundo, em sintonia com o crescimento da raça em todo o planeta. Internacionalmente, a raça Jersey é representada pelo “World Jersey Cattle Bureau”, entidade com sede na Ilha de Jersey que congrega todas as organizações mundiais dedicadas ao desenvolvimento e promoção da raça, reunindo milhares de criadores em cerca de 30 países, em todos os seis continentes.
A primeira descrição do gado Jersey, de que se tem registro na história da raça, foi feita por Le Conteur, que esclarecia: “A vaca Jersey possui a cabeça de uma corça, um olhar terno e inteligente, chifres elegantes e recurvados, orelhas pequenas e amarelas no seu interior, pescoço e garganta limpos, ossos finos assim como a cauda e sobretudo úbere bem conformado, de boa capacidade, com as veias de leite grandes e intumescidas”. A Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais publicou, em 1940, um fascículo denominado “A VACCA JERSEY”, onde assim a define: "A MAIS PRECIOSA PORQUE – RESULTADO DE SECULAR E APRIMORADA SELECÇÃO – É, DE QUANTAS EXISTEM, A MAIS SADIA, SOBRIA, DOCIL, PRECOCE E PRODUCTIVA." Modernamente, encontramos a vaca Jersey com característica físicas e genéticas bem definidas, sendo o tipo clássico, da Ilha de Jersey, de pequeno porte, esqueleto leve, com grande temperamento leiteiro e capacidade para a produção de leite com alto teor de gordura, e o tipo americano / canadense, maior, de ossatura delicada, angulosidade acentuada e com altas produções por lactação. Em resumo, a vaca Jersey é uma “máquina” com aptidão para, ao longo de sua vida útil, produzir leite de alta qualidade no equivalente a muitas vezes o seu peso vivo, aliando rusticidade e adaptabilidade ao meio ambiente, com maturidade precoce, regularidade reprodutiva, longevidade e persistência na produção.
O leite produzido pela vaca Jersey é o que contém os mais altos teores de gordura e de sólidos não gordurosos (lactose, caseína, vitaminas e minerais), dentre todas as raças de gado bovino leiteiro. Quando consumido na forma fluida, o leite Jersey apresenta-se mais encorpado e com um destacado sabor. É mais nutritivo, contendo 18% mais proteínas e 25% mais cálcio e fósforo do que a média. Os produtos derivados do leite Jersey possuem textura macia, suave aroma e sabor lácteo, com paladar mais acentuado do creme. Isto é fácil de se verificar, tanto nos queijos frescos, quanto nos maturados e, também, nos iogurtes e sorvetes. A manteiga Jersey, também conhecida como "Manteiga Inglesa", é muito rica em caroteno, sendo considerada a melhor do mundo. Devido ao seu alto rendimento, o leite Jersey é o mais valorizado pela indústria pois, além da excelente qualidade de seus derivados, é a matéria prima que gera a maior quantidade de produtos por litro processado. |